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Crônicas de uma escola muito louca

"Quando acordei, prometi que seria um dia bom, mas meu Peugeot 207 decidiu que não. Além do rádio que não lia mais pen drive e só sintonizava na estação gospel (pelo menos era a única da cidade que não tocava ‘A Voz do Brasil’), tínhamos também um fusível queimado no ar-condicionado. Me encaminhava à escola, já imaginando o caos que me aguardava, quando uma fumaça misteriosa começou a sair do capô. Parei em qualquer lugar – literalmente, qualquer lugar – e descobri que o vazamento de água era, na verdade, o reservatório do radiador decidindo que já tinha sofrido o suficiente. Chamei um Uber. Cheguei vinte minutos atrasado, pois o motorista insistia em dirigir devagar enquanto contava a história da mãe, que tinha um carro igual ao meu. ‘Explodiu com ela dentro’, ele disse, como se isso fosse um fato casual, do tipo ‘hoje o dia está bonito’. Eu pensava: ‘Deus, se eu tivesse um filho desses, eu também me explodiria.’ Na sala de aula, a turma do 1°C me aguardava. Quer dizer, uma peque...

Processo Seletivo no Inferno

Recentemente, morri duas vezes. Em uma destas, eu estava no purgatório, aguardando minha vez de ser chamado. Era como uma sala de espera, com paredes cinzas infinitas, chão de carpete e cadeiras de plástico como as de clínica de convênio. Olhei para minhas mãos, onde encontrei um papel de senha com o número 12. Quando finalmente encontrei o visor de senha, marcava -639. Apitou e exibiu o número: -638. Não há muito o que se fazer. Eu não podia dormir e não sabia onde estava, ainda. Por sorte, uma pequena portinhola se abriu, em uma parede cinquenta metros à frente, de lá vi sair um ser com pés de cabra, chifres de boi e olhos de peixe. — Senhor Henrique Cruz! Me levantei e corri em direção. Ele apenas sinalizou que eu entrasse. Parecia um escritório. Me ofereceu uma cadeira para sentar e posicionou-se do outro lado da mesa. — Pois bem! O senhor morreu — disse ele com voz grave. — Antes de prosseguirmos, vou fazer uma pequena entrevista para mapear comportamentos que ajudarão os juízes a...

Maria Cecília

  Ela dizia que eu sou louco por agradecer a torradeira por ter feito as torradas perfeitamente. -Você sabe que os objetos não ouvem. Por que você não me agradece quando eu faço seu almoço? Eu agradecia todas as vezes, mas ela não ligava. Ela não queria que eu agradecesse e sim que eu elogiasse o macarrão sem sal. Eu dizia: -Macarrão é massa e tomate é fruta!   Se não colocar sal o prato fica doce! Então terminamos nosso namoro. ... -Muito obrigado pelos sessenta minutos de prazer que você me ofereceu! -São duzentos reais Agora eu agradeço as prostitutas pelo sexo, ao microondas pela comida, ao meu gato pelo carinho e Maria Cecília não me faz mais falta nenhuma!

Dani

-Filho, é uma festa de adultos. Daniel sabe que não é a primeira vez que os pais precisam passar uma noite fora, “porque é importante”. O problema de verdade é que dessa vez Dani, como a mãe prefere chamar, não terá o irmão mais velho cuidando dele. “ É importante, envolve o emprego do papai” - disse a mãe de Daniel. - “E vai ser tão chato, não vai ter ninguém da sua idade”. Mas Léo, o irmão de Dani, ele sim era grande o suficiente para ir á festa. Quatro anos mais velho e com síndrome de Down, Léo é dotado de um carisma inocente que encanta os corações mais sensíveis e amedronta os corações mais rígidos. O que Dani ainda não entendia, é que a presença do irmão na festa chamaria todas as atenções (e toda a pena) para o pai dos garotos, que assim garantia uma promoção seguida de aumento de salário. Mas Daniel só conseguia entender tudo isso como uma situação muito confusa. De um lado, era velho o suficiente para ficar sozinho em casa, pela primeira vez por...

O último Banquete de Jorge

O miserável agradeceu a marmita: -Muito Obrigado dona Lourdes. Se precisar de algum trabalho de casa como carregar caixas ou cortar a grama, eu faço na maior boa vontade para a senhora. -Não há de quê, filho. Já estive em situação parecida com a sua. É bem ruim precisar pedir por coisas tão básicas como comida. Jorge, o miserável, andou por meia hora até o parque, onde entrou no banheiro público e cagou. Terminado o serviço, usou   a pia. Enquanto jogava água na cara para umedecer a barba e se refrescar, pensava na situação anterior. “Dona Lourdes já foi uma miserável” “isso explica aquelas cicatrizes no rosto, não?”, ”marcas de um estupro, algo assim” “E ela tem toda aquela comida guardada, só para ela” “Quantas pessoas se satisfariam com aquilo tudo?” No Boca-a-boca a palavra se espalhou: Um banquete gratuito no sábado, na esquina do parque Água Azul. Uma mesa enorme, tirada da casa de Dona Lourdes, estava estendida com toalha e comida...

Ataíde

-Ou. P...p...para onde vai esse ônibus? -Esse aqui vai lá pro terminal Nova Bahia -Vixi. Não sei não, acho que peguei o ônibus errado. O que é isso que você está lendo? -Edgar Allan poe. conhece? -Não conheço não. Essas letrinhas aí eu nem enxergo. Minha ex mulher que lia, um livro desses daí ela lia num supetão. Meus filho lia também. Mas eu não falo com eles faz tempo. Canto tempo você leva pra ler um livro desses? -Eu vou lendo devagarinho, um pouco por dia. Não para pra contar não -Hã? -Leio um pouco por dia, nunca contei. -Ah... Eu nem sei pra onde esse ônibus vai. -Pra onde você quer ir? -O quê? Ih rapá, pra onde eu quero ir? Eu queria minha mãe me abraçando. -Ah. -Vou lá pra casa da minha mãe mas esse ônibus tá indo pro lugar errado. Leia aí. pode ler ...

Homem de Ferro

-A partir de agora você vai sozinho – Disse a mãe com o coração apertado. – Preciso Voltar ao trabalho. -Mas mãe, esse... -Não. Você está grandinho demais para isso. Você consegue chegar em casa sozinho. Só pegue o ônibus vinte e seis e desça na rua atrás da rua de casa. A mãe diz isso contra a própria vontade. O que ela realmente quer é levar o filho para a casa segurando-o pela mão, deixa-lo no quarto assistindo á televisão e colocar um cadeado no portão quando voltar para o trabalho. Mas ela também sabe que não dá tempo, se fizer isso, chegará atrasada e será demitida. Além do mais ela sabe que o filho Cauã agora é um homem crescido e apesar de todas as deficiências mentais, ela pode morrer a qualquer momento e quando isso acontecer o filho tem que saber se virar sozinho. Quando ela beija a testa do filho e dá as costas, sabe que não pode olhar pra trás. Ele vai esperar que ela suma, virando a esquina e só então vai voltar para casa. “Se eu olhar para trás, vou querer vol...