7/10/2018

Premonições


Tudo começou quando um pesadelo me acordou amedrontado às seis da manhã. Sonhei que enquanto ia à escola para entrevistar o professor, no início da noite, como pedia um trabalho de faculdade, eu era assaltado por dois jovens. No sonho, eu reagia ao assalto e levava uma facada. Na vida real, apenas acordei com oc coração acelerado.
O resto do dia correu como normal, ainda que minhas alergias coçassem muito mais do que o costume. Durante a noite, andava a pé até a escola. Escolhi fazer um caminho mais longo, porém diferente do feito no sonho. Mesmo que não acreditasse em premonições aquela época, algo mais forte que eu me guiou.
Virei uma esquina, e num canto escuro, os dois jovens já me esperavam em bicicletas. Eu não pude correr, estava tudo deserto aquelas horas, e eles foram muito rápidos. Não reagi, e talvez por isso levei nenhuma facada. Mas fiquei assustado por dias, não com o assalto em si, mas com o sonho anterior. Tentei me convencer que era uma coincidência e sonhei com isso porque era um bairro perigoso onde as chances de algo do tipo acontecer eram grandes.

Bastou que eu esquecesse do ocorrido e sonhei com um acidente entre um carro e um caminhão. No dia seguinte, foi assim que morreu um vizinho querido.
Essas situações de premonição se repetiram mais duas ou três vezes, e deixei de lado meu ceticismo. De fato, algo estava ocorrendo, e apesar de apenas prever coisas ruins, era um dom maravilhoso. Tentei recriar os dias em que as premonições apareciam, e todos tinham um item em comum. A contemplação.
Analisando meus diários percebi que as premonições apareciam apenas nos dias em que passei vinte ou trinta minutos contemplando a luz de uma vela ou apreciando o movimento da água em um monjolo. A brisa movendo folhas e o vapor em uma chaleira pareciam ter o mesmo efeito, desde que eu os contemplasse ao invés de apenas observá-los.
Tentei recriar essas situações, e após poucas tentativas, aprendi a causar propositalmente as premonições.
Sonhei com a morte de um famoso, com a demissão de um professor da faculdade, com o fim de meu relacionamento. Previ um acidente em frente a minha casa que deixou paraplégico um motoqueiro. Agora sim, eu estava certo de que tinha poderes. Perdi o medo de usá-los.
Criei uma identidade anônima e passei a enviar e-mails para um jornal. No início fui ignorado, mas em alguns dias, um estagiário qualquer prestou atenção em mim.
A regra era clara: Por três dias eu enviaria as premonições anonimamente, se quisessem publicá-las ou gravar material inédito, era uma escolha deles. A partir daí, me enviariam dinheiro por uma caixa postal também anônima, e eu permaneceria fornecendo conteúdo.
Nem todos os meus sonhos davam boas matérias, pois alguns eram extremamente pessoais. Nesses dias eu simplesmente não enviava nada para o jornal, e tentava evitar as tragédias que poderiam me ocorrer.
O jornal criou um quadro especial para mim, o “Flagrantes”, onde mandavam um repórter gravar o que eu previa, antes de todos os outros jornais. O Flagrantes não era uma sensação, mas com frequência captava grande audiência, o que foi muito lucrativo para mim e para o jornal.

Logo minha rotina se tornou um ciclo que iniciava com a contemplação do fogo, água, estrelas, ou então caminhar lentamente por bosques e abraçar cachorros. Durante a noite eu me deitava e aguardava as premonições. Pela madrugada, escrevia os e-mails ao jornal.

Um dia, o jornal publicou sobre uma criança que nascera prematura e estava internada.
No dia seguinte, sonhei com a mesma criança, chamada Ariel, enterrada em um caixão. Eles publicaram a morte da criança esperando que ela não demorasse, e toda a cidade se horrorizou quando uma mídia concorrente anunciou que o jornal havia mentido.
Eu expliquei que nunca antes minhas previsões falharam, e que não sabia o que tinha acontecido. Ainda, eu tinha toda a certeza do mundo que eu sonhava com a mesma criança da notícia do jornal.
O sonho com Ariel no caixão cheio de flores se repetiu. Também nunca tinha acontecido de uma premonição se repetir. O jornal esperou por mais alguns dias. O sonho se repetia, mas a criança só se recuperava mais rápido.
O jornal parou de me enviar dinheiro. E a essa altura eu já tinha montantes dele. Mas meu carro e minha casa já eram caros demais para se sustentarem sem as recompensas desse meu hobby. Foi quando decidi que pelo bem de meus bens, aquele bebê prematuro morreria de qualquer jeito.
Todo tipo de ideia me passou pela cabeça. De entrar no hospital como jornalista ou visitante e depois conseguir um uniforme de enfermeiro e depois desligar os aparelhos, envenenar ou sufocar a criança.
Logo a realidade caiu, e esse tipo de ideia dava errado até nos filmes, não funcionaria comigo.
Por cinco dias eu fiz meus exercícios de contemplação por volta do hospital. Cheguei a entrar lá e deixar doações em um cofrinho deixado na recepção.
Todos os dias, um real para os adultos, dois para as crianças.
Todos os dias, eu tinha as mesmas visões de Ariel em um pequeno caixão florido.
Encontrei na internet uma planta do hospital, com seus vários andares, suas cercas altas e diversas árvores. Passei a desenhar as prováveis instalações elétricas externas do prédio. Ainda que o hospital tivesse geradores, alguns segundos deveriam demorar até que fossem ligados os aparelhos que faziam o coração de Ariel bater, isso seria fatal para um bebê.
O plano era decente, eu precisava cortar o fornecimento de energia do prédio, e ainda fugir ileso. Por duas noites não dormi, e finalmente cheguei à conclusão de como deveria executar.
Meia noite. Desci do ônibus vestindo roupas normais e um casaco com capuz. Entrei no hospital e circundei para o estacionamento dos fundos. Lá, a primeira caixa de energia. Apesar de ter câmeras, não haviam seguranças nem enfermeiros descansando aquelas horas da noite. Tirei de baixo do casaco um pacote com dois desodorantes aerossol completamente cheios, presos com fita em um fogos de artificio da grossura de três dedos. No lugar do pavio da bombinha, coloquei um cigarro que cortei o filtro. Certamente queimaria mais devagar que o pavio.
Instalei o dispositivo na caixa de energia do hospital e acendi o cigarro com um isqueiro.
Saí de trás do hospital fumando um outro cigarro. Ao contrário do que meu medo havia dito, nenhum segurança armado veio atrás de mim.
Na esquina do prédio, ainda não havia escutado a explosão. Será que tinha sido descoberto ou o cigarro apagara sozinho? Não importa, a segunda parte do plano era a que realmente importa. Outro dispositivo explosivo desses, com quatro aerossóis dessa vez, estava preso em mim por um cinto. Subi pelas grades que cercavam o hospital até estar alto o suficiete para alcançar a fiação de um poste. Coloquei ali o outro explosivo, acendi e corri para o outro lado da rua.
Neste, mantive o pavio das bombas, o que fez com que explodisse muito rápido. Enquanto os fogos de artifício destruíam a embalagem dos desodorante, os gases pressurizados nele formavam uma explosão incendiária que queimavam os fios que não arrebentavam na explosão.
Logo, a única luz vinha do fogo que consumia a borracha dos fios. Causei um apagão no bairro inteiro. Boa parte da cidade já dormia, então mal notaram o barulho ou a falta de eletricidade.
Ouvi então o segundo estouro, lá atrás do hospital. Esse parecia mais um estalinho, mas depois dele vi as luzes de todo o prédio do hospital se apagarem.
Do outro lado das grades eu contemplava a escuridão no pátio do hospital. Demorou cerca de um minuto para que as luz se religassem pelo gerador. Isso significava, um minuto de aparelhos desligados pelo hospital. Não sei que problema minha sorte causou para que acontecesse isso. Alguns mistérios eu não tento explicar.
Caminhei para longe, com medo que a polícia chegasse. Virei uma esquina escura e permaneci escondido, repassando na cabeça todos os acontecimentos e como eu poderia negar qualquer envolvimento caso fosse descoberto. Como o jornal noticiaria o ocorrido e se aceitariam minhas previsões de volta.
Questionei até se voltaria a ter premonições, já que estava há dias sem dormir.
Me levantei para ir embora. Nesse momento, viraram a esquina dois garotos. Lá estavam, um pouco mais velhos, os garotos que me assaltaram na primeira premonição. Eles me abordaram, sem me reconhecer, mas eu lembrei deles. Queriam que eu desse celular, carteira, qualquer coisa, mas eu não os tinha comigo. Era arriscado carregar celulares ou carteiras para um crime.
Então, naquela rua escura próxima ao hospital em que eu matei Ariel, e mais uma dúzia de crianças e idosos que dependiam de aparelhos para respirar ou bater o coração, onde levei uma surra e algumas facadas, como previsto na minha premonição.


6/14/2018

Na infãncia, a mãe lhe disse que “Bonecas são coisas de menina”. E assim Roberto cresceu acreditando que não deveria ter bonecas. (E isso não é uma história LGBT).Ainda, o fascínio não saia da beça. A boneca que canta e dança que a prima lhe mostrava, a boneca chorona que a colega e escola exibia no “dia do brinquedo”. Roberto queria ter sua pŕopria boneca.
Durante o dia, Roberto jogava Bola. Pela noite, usava seu celular para pesquisar sobre a história das Barbies e maquiagem.
Enquanto os fracos transformam frustrações em desculpas, Roberto transformava em motivação. Faria Bonecas um dia.
-O que um olho disse pro outro depois de uma piada sem graça? - Rí mel. Ri,meu. Entendeu?
Nenhum dos outros garotos sabiam o que é um rímel, mas jussara, “a menina do rolẽ”, dera gargalhadas com o trocadilho. Assim foi que roberto ganhou sua primeira boneca.

Já aos 22 anos, Jussara e Roberto estavam noivos. No mesmo dia em que decidiram marcar o casamento, Jussara virou uma bola boneca.
Roberto a levou para um motel na beira da estrada, e saiu de lá em seu Fiat, com jussara deitada no banco de trás. Em casa, colocou a garota na cama e começou a despi-la. Para conservar, pensou em usar formol. Mas a plicação, cheiro e preço eram inviáveis.
Roberto passou com todo o cuidado do mundo, camadas finas de uma mistura de cimento e gesso por cima do corpo de jussara. Por fora, uma bela estátua, que mais tarde recebeu um vestido de noiva. Por dentro, dentes rangendo em um último espasmo de vida.
Roberto conquistou Daiane, que também virou uma estátua, com um vestido vermelho.
Renata ganhou uma camiseta e um boné.
Mas em Marisa, Roberto não quis usar cimento. Tomou vergonha na cara e usou tudo o que aprendeu no tutorial de taxidermia. A Vagina de Marisa deveria ser conservada.


5/13/2018


Hoje foi um daqueles dias em que nada quis minha companhia. Ninguém quis conversar, nenhum livro quis ser lido, a cama não quis meu contato e as pessoas que me amam estavam ocupadas. Nenhum jogo quis ser jogado.
Ao fim do dia, bebi meio litro de vodca, o que não me deixou tão bêbado como gostaria, e decidi comprar outra garrafa. Entrei no mercado, peguei uma  garrafa, paguei por ela e saí para o estacionamento.
-Ei, tem um cigarro aí? – Disse o velho, escorado em um Uno mille.
-Não, desculpa.
-Não faz mal. – Como chama essa rua?
Fiquei feliz por alguém querer minha atenção, e parei para conversar.
O homem me disse sobre como parou ali, e me ofereceu um chocolate.
Ofereci um gole da minha vodca, e ele aceitou. Ao se aproximar, me enforcou e colocou um pano em meu nariz. Inicialmente, pânico. Depois, falta de ar, espasmos, e luzes coloridas.
Não lembro de nada após isso. Acordei em um quarto totalmente branco. Seis ou sete paredes. Não consegui contar de imediato.
Com a visão ofuscada, me levantei e tateei em volta. Depois de circundar o aposento três vezes, percebi que estava andando em círculos, em um quarto de paredes brancas sem nenhuma porta. Sem janelas ou alçapões.
Me sentei, e ao encostar as costas na parede, percebi que eram feitas de um tipo de vidro. Por trás das paredes de vidro, telas de computador gigantes. Percebi isso quando letras e números completamente aleatórios passaram a aparecer pelo quarto. No chão, paredes e teto, códigos, caracteres que me pareciam completamente aleatórios.
Sem banheiro, decidi mijar em um dos cantos do aposento. Caguei no mesmo canto.
Os caracteres aleatórios continuavam aparecendo. Arrotei a vodca consumida anteriormente.
As memórias começaram a voltar. O mercado, a vodca. O velho.
Como eu sairia daquele lugar branco era um mistério maior do que como eu parei ali.
Gritei, mas de nada serviu do que para me deixar rouco.
Bati com a mãos e com a cabeça contra um mesmo ponto de uma das paredes, esperando quebra-lo, mas em vão. Aquilo era vidro blindado, no mínimo.
Sons. Música ruim tocava no último volume.
“Honey love you, honey little,
Honey funny sunny morning
Love you more funny love in the skyline baby”
Do nada, a música parou.
E tocou novamente, o mesmo trecho.
E de novo, por mais de uma vez.
Cansado da música, deitei no chão, ao lado oposto do canto onde caguei e mijei. Não, que isso diminuísse o desconforto do cheiro.
Dormi, por horas a fio.
Acordei no mesmo lugar: um quarto branco onde número e caracteres aletórios piscavam nas paredes, teto e chão.

5/12/2018

O último Banquete de Jorge


O miserável agradeceu a marmita:
-Muito Obrigado dona Lourdes. Se precisar de algum trabalho de casa, como carregar caixas ou cortar a grama, eu faço na maior boa vontade para a senhora.
-Não há de quê, filho. Já estive em situação parecida com a sua. É bem ruim precisar pedir por coisas tão básicas como comida.
Jorge, miserável, andou por meia hora até o parque, onde entrou no banheiro público e cagou.
Terminado o serviço, usou  a pia. Enquanto jogava água na cara, para umedecer a barba e se refrescar, pensava na situação anterior.
“Dona Lourdes já foi uma miserável”
“isso explica aquelas cicatrizes no rosto, não?”, ”marcas de um estupro, algo assim”
“E ela tem toda aquela comida guardada, só para ela”
“Quantas pessoas se satisfariam com aquilo tudo?”
No Boca-a-boca a palavra se espalhou: Um banquete gratuito no sábado, na esquina do parque Água Azul.
Uma mesa enorme, tirada da casa de Dona Lourdes, estava estendida com toalha e comida, desde a madrugada. Às seis da manhã começaram a chegar os primeiros. Cuscuz, arroz, ovos e enlatados em um pote volumoso. Se serviam os miseráveis.
Sobrou comida para os que chegaram ás 9 e comeram coisa fria.
Dois homens gordos e barbudos, chegaram em um sedã e colocaram pães (amanhecidos) na mesa.
Entre os que se deliciavam, Jorge era o menos satisfeito. Não parava de comer enquanto não passasse mal, porque nunca vira comida antes em tanta abundância.
Doaram mais arroz, e mais feijão. Farinha, três ou quatro pacotes de um quilo.
Outra padaria descartou ali seus resquícios do dia.
Jorge arrotou ao por do sol. E começou a caminhar sem direção.
Quando viu, tinha dois reais de esmola no bolso. Comprou um corote. Jorge virou a garrafa plástica e a última gota caiu em sua língua.
A casa de Dona Lourdes estava sempre aberta para Jorge.
Jorge entrou na casa. Enquanto isso, os outros mendigos festejavam á esquina do parque.
 Dona Lourdes chorava, com os braços atados á uma corda, o retrato do marido militar jogado ao seu lado. Jorge chorava de comoção ao ver a cena.
O sonho de Lourdes era fazer o que Jorge fez. Ela se preparava para fazer isso antes de morrer: Um grande banquete aos miseráveis. Seria de longe, a mais santa, com vaga garantida no céu.
Mas para fazer isso, precisava garantir que a morte estava próxima.
Lourdes viu a morte tantas vezes que não mais acreditava nela.
Até Jorge bater nela com a frigideira quente que usou para fritar os ovos do banquete.

3/21/2018

Foda-se


Caco estava absorto em pensamentos aleatórios quando a porta se escancarou. Um homem armado com camisa social rendeu todos os seis amigos de Caco que estavam naquela sala. O homem também fechou a porta. Tiros foram ouvidos no andar de cima.
O bandido bem vestido apoiou uma das mãos na mesa e continuou apontando a arma com a outra mão. “Ninguém se mexe, ou vai todo mundo morrer”.
“Isso é algum tipo de assalto?”
Quando o homem se virou para ver quem fazia a pergunta, Caco pulou nas costas dele, puxando a arma para cima. Abriu-se um buraco no teto. O homem forçava para brigar, mas Caco era gordo demais e estava muito bem atracado á seu pescoço. Mais tiros foram ouvidos e depois de um deles, água começou a escorrer de algum cano furado (que cagada!).
Acabaram as balas, e ninguém estava ferido, até que Liz e Sílvio ajudavam Caco conter o bandido.
Caco tirou a arma da mão do homem estranho e tirou do cinto dele um pente novo.
“De onde Caco aprendeu a recarregar armas? Ele tem medo de airsoft”
Caco aponta a arma para a porta.
Um outro encamisado abre a porta. “Mas que porr...” e um tiro se ouve.
Um outro tiro mata o bandido que Liz e sílvio seguravam. Gritos.
“Caco é doido”
O menino Caco sai correndo pela porta, com pose de agente secreto (ele copia isso de toda a ficção que já assistiu no cinema). Atravessando o corredor da faculdade, Caco atira com a arma do bandido contra todos os que não reconhece o rosto, principalmente os homens bem vestidos.
A maioria dos que caem com os tiros de Caco está armado. Isso é algum tipo de invasão?
Ele atira contra os que estão nas escadas, e continua o corredor. Caco sai para fora, quando um homem começa a correr.
Caco corre atrás do homem que corre de Caco.
Caco atira, mas nenhuma bala sai.
Caco morre.
Os amigos de Caco, soltam o bandido quando outro entra na sala e os ameaça.
Liz e Sílvio Também morrem, já que o bandido novo queria ameaçar alguém.
Todo mundo morre. Até os bandidos.


3/09/2018

Ataíde


-Ou. P...p...para onde vai esse ônibus?
-Esse aqui vai lá pro terminal Nova Bahia
-Vixi. Não sei não, acho que peguei o ônibus errado. O que é isso que você está lendo?
-Edgar Allan poe. conhece?
-Não conheço não. Essas letrinhas aí eu nem enxergo. Minha ex mulher que lia, um livro desses daí ela lia num supetão. Meus filho lia também. Mas eu não falo com eles faz tempo. Canto tempo você leva pra ler um livro desses?
-Eu vou lendo devagarinho, um pouco por dia. Não para pra contar não
-Hã?
-Leio um pouco por dia, nunca contei.
-Ah... Eu nem sei pra onde esse ônibus vai.
-Pra onde você quer ir?
-O quê? Ih rapá, pra onde eu quero ir? Eu queria minha mãe me abraçando.
-Ah.
-Vou lá pra casa da minha mãe mas esse ônibus tá indo pro lugar errado. Leia aí. pode ler
...
-Ou, você. Pra onde esse õnibus tá indo?
-Pra onde? Lá pro terminal Nova Bahia.
-Vixi. Não sei não. Eu tô é perdido.Ih rapá, Não sei onde eu tô não.
-Tá perdido é? *gargalhada* Aqui é a avenida Zahran.
-Ah. A avenida. Mas vai pra onde?
-Vai lá pro terminal.
-E lá tem cachaça?
-O senhor curte uma cachaça?
-Eu comecei beber com nove anos. Me corromperam. Meus filhos são tudo maior que ocêis. Tudo do tamanho daquele lá lendo livro. Parece minha ex mulher. Só queria saber de ler livro. E eu, só queria saber de cachaça *gargalhada*.
Eu não vejo meus filhos faz tempo. Dá um realzin aí? pra eu tomar uma jamel.
-Não tenho não. Se fosse pra comprar uma broca eu até dava.
-Você disse droga? sabe, eu não fumo não, não fumo essas coisas ai de droga não, pra minha mãe não ficar triste, mas se você tiver um aí e quiser dar na minha mão, nóis experimenta *gargalhada*
-Não, eu disse Broca. Bro-ca. Comida, lanche, almoço. E você compra pinga com um real?
-Ah, se você quiser me pagar a de dois real também serve.
*O moço que lia o livro se levanta e fica em pé*
-Aí, o senhor ficou se escorando no cara ele ficou puto. Até parou de ler o livro.
-Nem vi. Você é bonito hein.
-Ih, alá, o bebum tá afim do marquinho.
-Cê já tem namorada já? Cantos anos tem?
*Gargalhada*
-Aquela ali não é a mulher da novela? Ei moça, você é muito bonita viu. Isso dai é chapinha que chama? no seu cabelo.
-*Segurando a gargalhada* Obrigada, isso é trança que chama.
-Ela é bonita não é? Parece a mulher da novela.
-Como o senhor chama?
-Eu chamava Ataíde.
-Como assim, chamava?
-Eu chamava Ataíde. Pra onde esse ônibus vai?
-Deixa eu levantar aqui. Você tem um cigarro? Eu quero um cigarro.
-Não tenho não.
-È assim que fala? Você tem que falar "eu não fumo"
-Eu não fumo não senhor.
-Aham. Que bom. Continua assim. Eu já fumei meus três pulmão. Você acredita que eu tenho três pulmão?
-Ah é?
-A gente que fuma precisa de vocês que não fuma pra doar pulmão pra gente. Acredita que eu tinha três fumão e fumei os três?
-Nossa, Três?
-Fumei os três. Agora queria outro e não tenho. E você não fuma pra me dar um cigarro. Pra onde esse ônibus vai?
-Pro terminal Nova Bahia
-Eu peguei o ônibus errado. Vou ter que esperar.
*O garoto que lia o livro de Allan poe volta*
-Toma aqui um dinheirinho, o senhor vai sentir fome mais tarde.
-Garanti o de hoje. Deixa eu me levantar aqui. Vou sentar ali. oi moça. Você não conversa não?
*balança a cabeça, não*
-Então eu vou conversar com esse menino. Você parece o Fiuk. Você não é filho do Fábio Junior não?
-Não sou não. *gargalhada*
*Gargalhada* - Ih tio, ele parece o Wesley safadão isso sim.
-Ih rapá, que safadão que nada. Esse dai parece o Fiuk. Pra parecer safadão tem que engordar mais um pouco.
*Gargalhada*
-Menino, você parece o Fiuk. Se eu tivesse um celular eu ia abrir um site pra mandar uma foto sua para o Fábio Júnior.
-Para onde vai esse ônibus?
-Esse vai pro Nova Bahia.
-Aquele ali é o shop?
-É sim. O Shopping Campo Grande. O senhor já foi?
-Eu? E eu vou fazer o que em shop? Tenho nada pra comprar lá.
-Eu também, as vezes não tenho dinheiro pra comprar nada, mas é bom ir lá só pra ficar andando.
-Eu já ando muito, o tempo inteiro Não vou andar em Shop. Até enquanto eu durmo minha mente anda, mas não anda em shop. Eu queria é chopp.

Ataíde desceu do ônibus no Terminal. Deitou-se em um banco, e acordou com o guarda o empurrando com a ponta de um cassetete.
-Já tô indo seu dotô. Não quero confusão.
Ataíde tomou outro ônibus e voltou para o lugar de onde viera. Pegou o último ônibus do dia e chegou em casa depois de atravessar um terreno baldio e ainda andar mais algumas quadras.
-Será que tem Jamel lá na cozinha?
Ataíde bebeu mais uma garrafa. Foi para o outro quarto da casa. O defunto de uma mulher muito gorda jazia podre cercado por três crianças mortas, com braços amarrados e mordaças agora frouxas pela decomposição das bocas.
-Ah, Berenice. Se ocê não tivesse me deixado, tirado meus menino de mim, eu dividia essa cachaça contigo. Eu queria minha mãe me abraçando. Faz tempo que ela não fala comigo, igual eu não falo com meus filho.
Ele se deitou ao lado do corpo do filho mais velho. E adormeceu.